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Colo em flor.

Depois de largos anos de adormecimento em relação às palavras, eis o regresso, o recomeço, às tentações da escrita e da criatividade. Enfim, um "parto" de ideias.

Colo em flor.

Depois de largos anos de adormecimento em relação às palavras, eis o regresso, o recomeço, às tentações da escrita e da criatividade. Enfim, um "parto" de ideias.

25.05.22

Vem colher alfaces!


Lia Ramos

Os meus dias normalmente são bonitos, mesmo aqueles em que não aparece o sol. O vento e a chuva são igualmente bonitos.  Sinto-me grata ao universo por tudo aquilo que me dá:  pela vida, pelos filhos, pela saúde, pelos que amo, pelos que me amam,  pelo que faço,  pelo amor que trago em mim e pelo amor que dou aos outros.Estes dias iluminados entram-me pelos olhos dentro e alojam-se no coração. Nem sempre permanecem comigo. Nem sempre fixam morada. Por vezes vão visitar as minhas memórias, os meus avós, o meu pai,  as minhas perdas, o meu amor que mora perto e vive longe, e nesses dias, a tristeza faz visita à minha rua e bate à minha porta! Dou por mim a convidá-la a sentar-se e a morar uns dias comigo. Só uns dias. Não dou guarida a tristezas permanentes.

As paredes da minha casa são de pedra e já estão habituadas a mim. Moram em mim e eu nelas.  Os seus pilares estão cravados nos meus pés. Não me falham, nunca!!  Posso garantir que as paredes da minha casa me conhecem bem. Os passos, a voz, o choro e as gargalhadas estão tatuadas em cada tijolo. Com muito orgulho! Confio nelas. Nunca revelaram os meus segredos  e protegem-me sempre nos dias em que sinto que o mundo é um lugar feio para se viver.    

  Juro que me sinto merecedora dos mimos da vida. Faço por isso! E não é sorte,  mas sim puro merecimento!  Não me invejem!  Tenho dias em que o corpo dói e a alma  precisa de descanso. Por vezes nem consigo dormir de tão cansada mas nesses dias conto estrelas e ilumino-me por dentro!! 

Faço sementeiras todos os dias. Preparo a terra onde me deito, a mesma que me alimenta : cavo, lavro, esgravato se preciso for, semeio, planto, rego e colho. Mereço colher se sempre plantei.

Nem sempre há festa no dia da colheita! As colheitas querem-se silenciosas. Prefiro o barulho das sementeiras para acordar a terra. Estar preparada para receber a semente, como uma amante atenta a preparar o leito. 

Sempre preferi dar do que receber. Por isso (ainda) sou  criança.  Por isso, sou professora. Por isso, sou mãe. Por isso, sou mulher. Por isso, sou fiha. Por isso, sou  irmã. Por isso, fui neta. Por isso sou o teu amor. Por isso escrevo para ti. 

Lembro-me muitas vezes da minha infância.  Fui uma menina timida e humilde e achava que o mundo não era justo. Eu merecia ter um pai e uma família como as outras crianças da minha escola. Na noite de Natal, em que o menino Jesus deixava na minha humilde casa, junto à chaminé,  um presentinho para mim, o tal  brinquedo que eu tinha falado à minha mãe e que tanto desejava, sentia que afinal eu era merecedora de algo bom.  Posso garantir que sensação era plena, sublime e divina porque me sentia mais perto do céu, num plano superior.  Afinal eu existia para Ele,  lembrava-se de mim, no meio de milhões e milhões de criaturas pequeninas e insignificantes deste enorme mundo dos vivos. Na minha inocência, acreditava convictamente nesse Jesus, que afinal se chamava Mãe ou Avó. Acontecia magia na minha cabeça e no meu pequeno coração!

Gostava de ir para o campo colher flores pequeninas na primavera. Era o miminho dos céus para as crianças  pobres que não tinham jardim nas suas casas, nem palácios, nem parques com baloiços e escorregas,  nem cidades luminosas. Eu só tinha uma aldeia cheia de crianças e de velhos, um pequeno quintal, muitos animais,  uma horta e muitos montes e vales carregados de giestas, urzes e alecrim. As flores que cresciam na minha aldeia eram livres, como eu, apareciam do nada, como por magia, eram oferecidas pela natureza, regadas pela chuva, eram amarelas e brancas e salpicavam os verdes lameiros, num mesclado encantador. Nunca falhavam! No tempo certo, lá estavam elas a aparecer e a fazer rir os meus olhos castanhos e a minha boca desenhada. Sempre gostei dessa lealdade. Nunca me trairam. Confesso que cheguei a duvidar delas! Atrasavam-se, em alguns anos, mas quando menos esperava, apareciam! O encanto da surpresa!   Às vezes vinham timidas, escondidas entre as pedras, talvez um parto negligente por falta de assistência,  outras vezes a cor vinha esbatida e as pétalas muito atrofiadas,   mas sempre me cumprimentavam e sorriam para mim. Pareciam sentir saudades minhas. Afinal, as estações contaram os dias.  Isso reconfortava-me. Gostava de enfeitar o cabelo com flores. Raras vezes as colhia. Achava um erro cortar flores. Ainda acho.  Um ato egoísta e cruel.  Não gosto de matar flores, nem bichos, nem pássaros, nem peixes, muito menos almas. Por vezes gostaria que as flores dos campos tivessem cores mais fortes e coloridas:  cor de rosa,  laranja, coral, vermelho...Mas logo me arrependia de pensar assim....A minha avó dizia que devemos ser gratos e eu já estava a receber uma dádiva tão bela e perfumada.  

Muitas vezes  acordo a pensar que o mundo é enorme e eu sou apenas um pequeno grão de areia neste infinito deserto. O meu oásis, por vezes tão longe, deve estar a ser cuidadosamente preparado. Imagino-o  repleto de palmeiras, altas e vigorosas, a crescer para mim. Não para me fazerem sombra, mas para me darem todo o esplendor da altivez e da maturidade, que procuro em mim e nos outros. Sempre me fascinou a força das coisas e das pessoas. Gosto de gente forte, peito largo para encostar a cabeça, pessoas carregadas de certezas e lucidez. Encanta-me a delicadeza e a subtileza, mas prefiro  a tenacidade e a coragem.A resiliência, essa, fascina-me. Gosto de força!!  Força nas palavras, nos gestos, nas atitudes.O meu oásis deverá ter lagos, cascatas e ribeiros, muita água fresca, movimento, luz e fruta colorida para me deliciar nas noites quentes. Deverá ter horta para semear as minhas alfaces e um banco de jardim para me sentar a vê-las crescer.

E assim será, porque mereço. 

E tu, aí, virás sentar-te ao meu lado. Fazer -me companhia e amar os nossos  dias. 

Vem colher alfaces! Comigo!

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