Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Colo em flor.

Depois de largos anos de adormecimento em relação às palavras, eis o regresso, o recomeço, às tentações da escrita e da criatividade. Enfim, um "parto" de ideias.

Colo em flor.

Depois de largos anos de adormecimento em relação às palavras, eis o regresso, o recomeço, às tentações da escrita e da criatividade. Enfim, um "parto" de ideias.

02.08.22

Há Mar na maleta!


Lia Ramos

 

 

Sempre gostei de malas. As mulheres costumam gostar de malas.  A primeira mala pela qual me apaixonei era de couro, castanha escura,  pequena e retangular. Tinha uma asa prateada, já enferrujada, e uns carimbos de um alaranjado gasto, tatuados no tampo rugoso. Na verdade não era uma mala, era uma maleta. Assim lhe chamava o avô António.  Sempre me lembro de a ver pousada em cima da velha mesa do seu quarto. 

O avô António tinha emigrado para o Brasil e comprado a maleta nessa altura para levar meia dúzia de camisas e uns pares de meias.  Deixou mulher e cinco filhos pequenos na aldeia transmontana onde morava. A sua valente mulher ficou sozinha a trabalhar no campo, a lavrar a terra, a cuidar da casa,  a tratar dos filhos e dos animais e o avô  António foi fazer pão para o Brasil. Contou-me que tinha ido no porão de um velho navio, por ser mais barato, e que tinha demorado dias e dias a chegar.  Poucos anos se aguentou por lá. Preferiu o pó da terra ao pó da farinha e regressou  no mesmo porão do navio.  O fermento fazia crescer a massa do pão mas também levedava as saudades da família que duplicavam a cada fornada.

A  maleta  tinha testemunhado essas aventuras e por isso passei  quase a admirá-la pois esta simples maleta tinha respirado maresia e assistido a partidas e chegadas. Ela conhecia bem o mar, mas eu só o tinha visto espelhado nos olhos azuis do meu avô e numa imagem da capa do livro da primeira classe.  Era também na maleta que o meu avô  guardava a água de colónia, com odor a lavanda, e os seus sonhos, uns feitos, outros desfeitos. Desconfio que a maleta também conhecia o sabor das lágrimas do meu avô. Eu nunca tive coragem de perguntar se tinha chorado de saudades, mas acredito que sim, a medir pela intensidade dos abraços, a ternura do olhar e a vastidão do colo.

De vez em quando, a curiosidade dos meus sete anos levava-me a abrir a velha maleta. O  final  da tarde de domingo era a altura escolhida. Sempre me senti estranhamente triste ao cair da tarde de domingo.  Ainda hoje é assim,  nunca soube o motivo de tal melancolia. Gostava de cheirar a maresia que vivia impregnada no couro castanho da maleta do avô António. Eu acreditava que existiam muitos sonhos por sonhar e que o mar podia estar perto estando longe, e que um pedacinho de mar vivia dentro daquela maleta. Esses mágicos momentos despertavam-me o ânimo e aguçavam-me a esperança. 

 Na casa dos meus avós,  a simplicidade era despojada e dispensavam-se os adornos. As gavetas estavam quase sempre vazias, mas os corações estavam quase sempre cheios. Na maleta do avô António existia um pequeno tesouro.  Confesso que ainda pensei se haveriam riquezas escondidas nas grossas paredes de pedra da nossa casa antiga, onde os nossos antepassados tinham vivido,  dentro de um pote ou baú,  deixadas por um bisavô ou trisavô poupadinhos, mas logo abandonei esses pensamentos porque me limitavam a imaginação.  Preferi afeiçoar-me a uma velha maleta que tinha pequenos tesourinhos guardados pelo meu avô: cartas escritas em papel de avião, selos bonitos com reis, rainhas e pássaros exóticos,  postais de boas festas dos tios e primos,  carrinhos de linhas e botões, fotografias de gente que nunca conheci, chaves que nunca soube que portas abriram,  retratos de Santos Patronos das festas e romarias das redondezas,  sabonetes miniatura com cheiro a alfazema, um baralho de cartas gastinho, comprimidos coloridos, colónia de lavanda em frasco verde e as lâminas da Gillette do meu avô.  Tudo convivia num reboliço desconcertante, mas incrivelmente organizado, dentro da maleta. Tudo pertencia ali e sempre lá quisera estar.

O meu ritual de descoberta era sempre o mesmo. Começava por deixar a porta do quarto entreaberta, focava o olhar na maleta,  passava os dedos na  pele castanha e rugosa do tampo e, depois, como  menina lambareira que era, imaginava por breves instantes uma  linda tablete de chocolate, porque o céu era o limite para a imaginação de uma criança. Devagarinho,  abria a maleta e retirava os retratos das Santinhas de papel que mais gostava.  Sentava-me em cima da cama a admirar os vestidos e os longos cabelos negros da Senhora dos Remédios, da Senhora do Amparo, da Senhora da Conceição e da Senhora da Serra. Gostava dos mantos  e dos véus delicados, em tons clarinhos e suaves: branco,  verde água, azul turquesa e  rosa bebé.  Fascinavam-me as coroas de ouro na cabeça, as rosas e açucenas na mão, as feições perfeitas, os lábios rosadinhos, os olhos brilhantes, os sorrisos desenhados, a pele alva e fina, os meninos rechonchudos ao colo, as serpentes, os lagartos, as lagartixas e os jacarés, no chão, junto aos pés como cães dóceis,  de boca aberta a olhar para cima. Pareciam enfeitiçados e divinamente domesticados e depois os anjinhos papudos a completar o quadro,  cada qual mais loirinho, de caracóis perfeitos, era um cenário paradisíaco.  E assim, no meio do meu deslumbramento inocente,  punha-me a imaginar como seria o céu. Só podia ser um lugar perfeito com tanta senhora de olhar celestial, anjos de asinhas transparentes e animais selvagens e felizes que nunca atacavam ninguém. No final do ritual gostava de cheirar o interior da maleta, por breve segundos, depois voltava a fechá-la até ao próximo encontro. Posso garantir que pedaços de mar e de céu viviam na maleta do meu avô.

 Quando o meu avô fez a sua última viagem já não foi fazer pão para o Brasil, nem foi no porão do velho navio,  mas ele sempre preferiu o pó da terra ao da farinha. Não levou a maleta, mas ninguém leva maletas desta vida. Foi nessa altura que a maleta veio morar comigo.  Vive na minha sala. Já está velhinha. De vez em quando, nas tardes de domingo,  abro-a devagarinho, para que as memórias se soltem e a maresia perfume a casa.  

 

296092892_2310890612395435_7895320230539275201_n.j

 

.