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Colo em flor.

Depois de largos anos de adormecimento em relação às palavras, eis o regresso, o recomeço, às tentações da escrita e da criatividade. Enfim, um "parto" de ideias.

Colo em flor.

Depois de largos anos de adormecimento em relação às palavras, eis o regresso, o recomeço, às tentações da escrita e da criatividade. Enfim, um "parto" de ideias.

30.07.22

Figos com Amor


Lia Ramos

Tenho saudades do tempo em que ia com a minha avó para os campos apanhar figos para secar. Em Trás os Montes costumamos secar os figos numas mantas ao sol. Era um processo divertido ver os figos secarem e serem reduzidos a puro açúcar.  As nozes, já sem casca, esperavam por eles, ansiosas, para a perfeita combinação de sabores. Lembro-me de os figos secos serem comidos pelos homens quando iam trabalhar para os campos, bem cedo, às cinco ou seis  da manhã, acompanhados de pão caseiro, nozes e um cálice de aguardente. Chamava-se a esta pequena refeição matinal "mata-bicho" . Este "bicho" só podia ser o bicho da fome, bem ruim, como devem imaginar, e matá-lo era o primeiro prazer do dia daquela gente naturalmente sábia. 

Antes de sairem de casa para os trabalhos pesados do campo, os homens metiam meia duzia de figos secos ao bolso, que por serem muito doces, eram verdadeiros rebuçados de energia para retemperar as forças. 

Eu era menina e lembro-me de comer mais figos do que colhia. Passava o tempo a brincar debaixo das figueiras e a saltitar à volta da cesta. A minha avó pedia, carinhosamente, para que os colhesse com os pezinhos e não esmagasse os que enfeitavam o chão. Nunca gostei das folhas das figueiras,  bonitas nos seus recortes, mas ásperas para a minha pele sensível de criança.  Muitos figos apareciam picados pelos pássaros e a minha avó  sempre dizia que eles escolhiam os mais doces porque sabiam muito bem quais eram os melhores. Desde aí comecei a confiar mais nos pássaros do que nas pessoas e a acreditar nas sábias escolhas da Natureza! Associo os figos à infância, à aldeia e ao verão. Sempre achei a figueira uma árvore quase mística. Os figos deitavam uma espécie de leite, pareciam mágicos. Um fruto quase  "trangénico" num laboratório chamado Natureza. Eu nunca percebi bem a razão disso acontecer e a minha avó, analfabeta apenas nas letras, também nunca me soube explicar.

Fazia-se Magia na Natureza, num palco muito especial, onde não precisava comprar bilhete para entrar!! Nesse tempo, a mágica da inocência, da doçura e da ternura eram os pingos de mel na minha boca.♥️

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2 comentários

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    Lia Ramos

    01.08.22

    Obrigada!
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