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Colo em flor.

Depois de largos anos de adormecimento em relação às palavras, eis o regresso, o recomeço, às tentações da escrita e da criatividade. Enfim, um "parto" de ideias.

Colo em flor.

Depois de largos anos de adormecimento em relação às palavras, eis o regresso, o recomeço, às tentações da escrita e da criatividade. Enfim, um "parto" de ideias.

31.08.22

Amo o traço


Lia Ramos

Amo o traço do rosto pintado.

Ignoro se a tinta já perdeu o pigmento. 

Ignoro se o retoque da cor se esbateu 

no aplainamento cavado da terra.

Quero as noites nas minhas mãos. 

Quero as estrelas a adornar os dias.

Quero o silêncio a colar-me ao chão.

Quero a lonjura nos meus olhos

e o descanso merecido nos teus.

Quero as tintas que realçam 

a matização da alva tela.

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27.08.22

As portas querem-se abertas!


Lia Ramos

Deixa a porta aberta para que o vento entre na tua casa e a possa arejar por dentro. Abre as janelas, ama os peitoris e abraça as tuas varandas.  Faz-te ao vento, à maresia, ao cheiro, à paisagem e ao caminho.   Faz-te à aragem e pede-lhe brisa fresca. Sente o vento  na pele e nos cabelos,  fixa-lhe o aroma e perfuma-te de ar puro e leve.  Dá-lhe a tua morada, numa cidade sem rua, num bairro sem fechaduras nas portas.  Mostra-lhe os labirintos  do teu corpo, as salas do teu coração e o lixo acumulado nos cantos e debaixo dos tapetes. Não lhe escondas nada. O vento é o velho companheiro do tempo e aprendeu com ele a arte de tudo levar, tudo esquecer e tudo limpar.

Deixa a porta aberta para que o sol aqueça as paredes da tua casa, derreta as mágoas guardadas na caixa da tristeza e envolva os teus pés frios.  Deixa-te ficar nesse confortável mimo. Encostado a ti. Encostado a mim. Partilha um jardim de flores, de girassóis vergados de amor,  de sombras e de luzes. Observa o nascer e o pôr do sol.  Renasce dentro desse mágico instante e aprende a conhecer a esperança, na certeza de um novo dia. Partilha um banco de jardim e bebe água fresca pelo mesmo copo.  Nunca deixes a porta entreaberta, a incerteza do sim e do não corrói,  a angústia instala-se no lado esquerdo do coração e faz brotar lágrimas de sangue. Nunca deixes a porta fechada porque  limita os sonhos, asfixia a vida e estrangula o olhar da paixão, do desejo e do querer. Usa as chaves para abrir almas esquecidas pelo desamor e ingratidão. Liberta-as dos labirintos onde se perderam. 

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Os sonhos querem-se livres. Os pássaros querem-se soltos. As portas querem-se abertas!  

18.08.22

Infelizmente existe!!!


Lia Ramos

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A injustiça e a ingratidão são tão feias!!! Os ingratos e os injustos são naturalmente assustadores e vazios. Não têm brilho. O olhar é baço e frio.  Conheço homens ingratos charmosos e  mulheres injustas belíssimas mas são tão escassos em afetos e desnutridos de vida!  Se fossem transparentes, e os pudesse ver por dentro, encontraria decerto um cenário de guerra cheio de destroços afetivos, perdas, frustações, traumas e bloqueios.  Normalmente são simpáticos e esbanjam sorrisos. São maravilhosos atores e na hora de fugir de cena são incriveis atletas e hábeis no jogo das escondidas. Não se despedem para não se tornarem memoráveis ou deixarem saudades. Querem ser recordados como se fossem o enredo principal de um filme da Agatha Christie.
Saem de mansinho. Em silêncio. Sem retribuir nada, sem devolver nada, sem agradecer nada. Boca fechada. A arma mais poderosa. Ficam invisiveis na sombra dos medos e depois inventam, para aliviar a culpa,  que nunca os  olhos se cruzaram. É um jogo onde se trocam as regras a meio.  A cobardia é o "checkmat" perfeito neste jardim de ervas daninhas onde apenas um é e o outro finge ser.  São tão inseguros que precisam tirar proveito dos fortes para não se sentirem tão fracos. Tantas vezes observo os olhos dos ingratos e não consigo ver nem uma pontinha de paz. Só medo, mágoa e angústia. Quase caio na tentação de os entender e apaziguar com o meus braços de amor e o meu colo em flor.  Os ingratos e os injustos parecem seguros de si mas são como cacos, destruídos pela frustração e impotência,  por não conseguirem trilhar os caminhos da sensatez e da verdade. Estão zangados consigo mesmos. Quase não se toleram. Muito menos amam os outros porque não se amam. Vivem em cima do muro a contar os dias na sombra e invejam o sol que bate no quintal dos felizes.  Espreitam às portas da bondade, amor, verdade, pureza, transparência e inocência e se estas estiverem abertas entram sem pedir licença, servem-se e saem de mansinho fazendo estragos  que podem levar a vida toda a curar. São muito poderosos!!  Os dentes dos ingratos e hipócritas cheiram a pasta dentífrica e a elixir de mentol e a sua especialidade é a pancadinha nas costas.  As mentes dos injustos e ingratos pesam toneladas. Só as balanças de Deus as podem pesar. Balanças gigantes para abarcar toda a sua existência. Aí a justiça será a divina, não a dos homens. Um dia irão sucumbir porque as dores de cabeça são intensas e a consciência não os deixa descansar. Se juntarmos a esta dupla magnifica a sorrateira  traição, a mentira e o prepotente orgulho  então o quadro fica (im) perfeito. A maior parte das pessoas só quer servir os seus próprios interesses, olhar para o seu umbigo e assim conseguir encher a carteira, pagar as contas, resolver os problemas,  ser promovidos no emprego, possuir os corpos desejados. E depois? Depois descartam e esquecem quem os ajudou. Não importa se são amigos, colegas, maridos,  mulheres,  amantes, namorados, pai, mãe, irmãos...  Usar o outro, como se usa um copo de plástico, deveria ser crime punível por lei. As pessoas não são coisas. As pessoas são pessoas. As pessoas sofrem. Não há pior sensação do que sentir o peso da ingratidão, da traição e do gume afiado da faca espetada nas costas. Os mais injustos e ingratos são os que mais ganham a nossa confiança e os que mais dizem amar-nos e apreciar-nos.
Aprendi desde criança que devemos ser gratos. Lembro- me de todas as  pessoas que me apoiaram nos dias mais tempestuosos da vida e recordo como estes  bálsamos me curaram as feridas: uma palavra, um mimo , um sorriso, uma mensagem, uma atitude generosa.  E já lá vão quase 20 anos!! Ainda hoje os respeito, os admiro e lhes sou grata. Um por um.
Mas... E se me tivessem matado a fome e a sede? E se me tivessem arranjado um emprego? Se acreditassem piedosamente em mim e nas minhas capacidades?  Se me emprestassem dinheiro quando não há saída e a ideia de pôr um fim surge na cabeça?  E se me apoiassem os sonhos e os projetos? E se me olhassem nos olhos e dissessem que poderia contar com eles? Se assim fosse, a gratidão só poderia ser eterna, para a vida toda.
Ser grato a quem nos ajuda, nos incentiva, nos impulsiona, nos salva, nos levanta do chão e acredita em nós, é obrigação moral e ética e é urgente ser emocionalmente responsável.
É uma benção ter alguém a caminhar ao nosso lado e a valorização do outro e a  retribuição  é um dever. Dizer obrigado é pouco, é uma palavra apenas, e se não for acompanhada de ações, de atitudes, de olhares sinceros de nada serve.  
Quando os Anjos da Terra, de alma bondosa e gentil, entram nas nossas vidas devemos sentir o seu  perfume para nos tornarmos melhores pessoas e tatuarmos na alma essa essência de amor. 
Por favor, não magoem os Anjos da Terra.  Um anjo ferido é mais uma estrela que chora no céu da desilusão.
É mais um anjo desacreditado, de olhar triste e os anjos da bondade servem para iluminar o mundo. Fazem muita falta pois mesmo sem asas elevam almas e aproximam-nas de Deus. Fazem-nas crescer e evoluir.
Não os deixem transformar-se em estátuas frias e estrelas mortas. 
 
Deixem-se iluminar por eles e iluminem também.  
 
Bem hajam por existirem desse lado. 🙏
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
02.08.22

Há Mar na maleta!


Lia Ramos

 

 

Sempre gostei de malas. As mulheres costumam gostar de malas.  A primeira mala pela qual me apaixonei era de couro, castanha escura,  pequena e retangular. Tinha uma asa prateada, já enferrujada, e uns carimbos de um alaranjado gasto, tatuados no tampo rugoso. Na verdade não era uma mala, era uma maleta. Assim lhe chamava o avô António.  Sempre me lembro de a ver pousada em cima da velha mesa do seu quarto. 

O avô António tinha emigrado para o Brasil e comprado a maleta nessa altura para levar meia dúzia de camisas e uns pares de meias.  Deixou mulher e cinco filhos pequenos na aldeia transmontana onde morava. A sua valente mulher ficou sozinha a trabalhar no campo, a lavrar a terra, a cuidar da casa,  a tratar dos filhos e dos animais e o avô  António foi fazer pão para o Brasil. Contou-me que tinha ido no porão de um velho navio, por ser mais barato, e que tinha demorado dias e dias a chegar.  Poucos anos se aguentou por lá. Preferiu o pó da terra ao pó da farinha e regressou  no mesmo porão do navio.  O fermento fazia crescer a massa do pão mas também levedava as saudades da família que duplicavam a cada fornada.

A  maleta  tinha testemunhado essas aventuras e por isso passei  quase a admirá-la pois esta simples maleta tinha respirado maresia e assistido a partidas e chegadas. Ela conhecia bem o mar, mas eu só o tinha visto espelhado nos olhos azuis do meu avô e numa imagem da capa do livro da primeira classe.  Era também na maleta que o meu avô  guardava a água de colónia, com odor a lavanda, e os seus sonhos, uns feitos, outros desfeitos. Desconfio que a maleta também conhecia o sabor das lágrimas do meu avô. Eu nunca tive coragem de perguntar se tinha chorado de saudades, mas acredito que sim, a medir pela intensidade dos abraços, a ternura do olhar e a vastidão do colo.

De vez em quando, a curiosidade dos meus sete anos levava-me a abrir a velha maleta. O  final  da tarde de domingo era a altura escolhida. Sempre me senti estranhamente triste ao cair da tarde de domingo.  Ainda hoje é assim,  nunca soube o motivo de tal melancolia. Gostava de cheirar a maresia que vivia impregnada no couro castanho da maleta do avô António. Eu acreditava que existiam muitos sonhos por sonhar e que o mar podia estar perto estando longe, e que um pedacinho de mar vivia dentro daquela maleta. Esses mágicos momentos despertavam-me o ânimo e aguçavam-me a esperança. 

 Na casa dos meus avós,  a simplicidade era despojada e dispensavam-se os adornos. As gavetas estavam quase sempre vazias, mas os corações estavam quase sempre cheios. Na maleta do avô António existia um pequeno tesouro.  Confesso que ainda pensei se haveriam riquezas escondidas nas grossas paredes de pedra da nossa casa antiga, onde os nossos antepassados tinham vivido,  dentro de um pote ou baú,  deixadas por um bisavô ou trisavô poupadinhos, mas logo abandonei esses pensamentos porque me limitavam a imaginação.  Preferi afeiçoar-me a uma velha maleta que tinha pequenos tesourinhos guardados pelo meu avô: cartas escritas em papel de avião, selos bonitos com reis, rainhas e pássaros exóticos,  postais de boas festas dos tios e primos,  carrinhos de linhas e botões, fotografias de gente que nunca conheci, chaves que nunca soube que portas abriram,  retratos de Santos Patronos das festas e romarias das redondezas,  sabonetes miniatura com cheiro a alfazema, um baralho de cartas gastinho, comprimidos coloridos, colónia de lavanda em frasco verde e as lâminas da Gillette do meu avô.  Tudo convivia num reboliço desconcertante, mas incrivelmente organizado, dentro da maleta. Tudo pertencia ali e sempre lá quisera estar.

O meu ritual de descoberta era sempre o mesmo. Começava por deixar a porta do quarto entreaberta, focava o olhar na maleta,  passava os dedos na  pele castanha e rugosa do tampo e, depois, como  menina lambareira que era, imaginava por breves instantes uma  linda tablete de chocolate, porque o céu era o limite para a imaginação de uma criança. Devagarinho,  abria a maleta e retirava os retratos das Santinhas de papel que mais gostava.  Sentava-me em cima da cama a admirar os vestidos e os longos cabelos negros da Senhora dos Remédios, da Senhora do Amparo, da Senhora da Conceição e da Senhora da Serra. Gostava dos mantos  e dos véus delicados, em tons clarinhos e suaves: branco,  verde água, azul turquesa e  rosa bebé.  Fascinavam-me as coroas de ouro na cabeça, as rosas e açucenas na mão, as feições perfeitas, os lábios rosadinhos, os olhos brilhantes, os sorrisos desenhados, a pele alva e fina, os meninos rechonchudos ao colo, as serpentes, os lagartos, as lagartixas e os jacarés, no chão, junto aos pés como cães dóceis,  de boca aberta a olhar para cima. Pareciam enfeitiçados e divinamente domesticados e depois os anjinhos papudos a completar o quadro,  cada qual mais loirinho, de caracóis perfeitos, era um cenário paradisíaco.  E assim, no meio do meu deslumbramento inocente,  punha-me a imaginar como seria o céu. Só podia ser um lugar perfeito com tanta senhora de olhar celestial, anjos de asinhas transparentes e animais selvagens e felizes que nunca atacavam ninguém. No final do ritual gostava de cheirar o interior da maleta, por breve segundos, depois voltava a fechá-la até ao próximo encontro. Posso garantir que pedaços de mar e de céu viviam na maleta do meu avô.

 Quando o meu avô fez a sua última viagem já não foi fazer pão para o Brasil, nem foi no porão do velho navio,  mas ele sempre preferiu o pó da terra ao da farinha. Não levou a maleta, mas ninguém leva maletas desta vida. Foi nessa altura que a maleta veio morar comigo.  Vive na minha sala. Já está velhinha. De vez em quando, nas tardes de domingo,  abro-a devagarinho, para que as memórias se soltem e a maresia perfume a casa.  

 

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