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Colo em flor.

Depois de largos anos de adormecimento em relação às palavras, eis o regresso, o recomeço, às tentações da escrita e da criatividade. Enfim, um "parto" de ideias.

Colo em flor.

Depois de largos anos de adormecimento em relação às palavras, eis o regresso, o recomeço, às tentações da escrita e da criatividade. Enfim, um "parto" de ideias.

29.05.22

As palavras


Lia Ramos

Hoje as palavras não saem à rua.

Têm as asas presas e a boca fechada.

Os seus braços não me abraçam.

Os seus versos não me agitam. 

Não nascem em mim.

Nem eu nasço nelas.

Parto difícil de ideias e luzes.

Hoje deito a cabeça nas entrelinhas.

Não há rimas.

Só desfechos que dormem na sombra.

No silêncio da pausa, a ausência de um peito.

Confusão poética, na recusa de um rosto. 

Neste tempo morno de primavera,

a exaltação de todas as esperas.

Suspensa.

Espero por elas.

As palavras.

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25.05.22

Vem colher alfaces!


Lia Ramos

Os meus dias normalmente são bonitos, mesmo aqueles em que não aparece o sol. O vento e a chuva são igualmente bonitos.  Sinto-me grata ao universo por tudo aquilo que me dá:  pela vida, pelos filhos, pela saúde, pelos que amo, pelos que me amam,  pelo que faço,  pelo amor que trago em mim e pelo amor que dou aos outros.Estes dias iluminados entram-me pelos olhos dentro e alojam-se no coração. Nem sempre permanecem comigo. Nem sempre fixam morada. Por vezes vão visitar as minhas memórias, os meus avós, o meu pai,  as minhas perdas, o meu amor que mora perto e vive longe, e nesses dias, a tristeza faz visita à minha rua e bate à minha porta! Dou por mim a convidá-la a sentar-se e a morar uns dias comigo. Só uns dias. Não dou guarida a tristezas permanentes.

As paredes da minha casa são de pedra e já estão habituadas a mim. Moram em mim e eu nelas.  Os seus pilares estão cravados nos meus pés. Não me falham, nunca!!  Posso garantir que as paredes da minha casa me conhecem bem. Os passos, a voz, o choro e as gargalhadas estão tatuadas em cada tijolo. Com muito orgulho! Confio nelas. Nunca revelaram os meus segredos  e protegem-me sempre nos dias em que sinto que o mundo é um lugar feio para se viver.    

  Juro que me sinto merecedora dos mimos da vida. Faço por isso! E não é sorte,  mas sim puro merecimento!  Não me invejem!  Tenho dias em que o corpo dói e a alma  precisa de descanso. Por vezes nem consigo dormir de tão cansada mas nesses dias conto estrelas e ilumino-me por dentro!! 

Faço sementeiras todos os dias. Preparo a terra onde me deito, a mesma que me alimenta : cavo, lavro, esgravato se preciso for, semeio, planto, rego e colho. Mereço colher se sempre plantei.

Nem sempre há festa no dia da colheita! As colheitas querem-se silenciosas. Prefiro o barulho das sementeiras para acordar a terra. Estar preparada para receber a semente, como uma amante atenta a preparar o leito. 

Sempre preferi dar do que receber. Por isso (ainda) sou  criança.  Por isso, sou professora. Por isso, sou mãe. Por isso, sou mulher. Por isso, sou fiha. Por isso, sou  irmã. Por isso, fui neta. Por isso sou o teu amor. Por isso escrevo para ti. 

Lembro-me muitas vezes da minha infância.  Fui uma menina timida e humilde e achava que o mundo não era justo. Eu merecia ter um pai e uma família como as outras crianças da minha escola. Na noite de Natal, em que o menino Jesus deixava na minha humilde casa, junto à chaminé,  um presentinho para mim, o tal  brinquedo que eu tinha falado à minha mãe e que tanto desejava, sentia que afinal eu era merecedora de algo bom.  Posso garantir que sensação era plena, sublime e divina porque me sentia mais perto do céu, num plano superior.  Afinal eu existia para Ele,  lembrava-se de mim, no meio de milhões e milhões de criaturas pequeninas e insignificantes deste enorme mundo dos vivos. Na minha inocência, acreditava convictamente nesse Jesus, que afinal se chamava Mãe ou Avó. Acontecia magia na minha cabeça e no meu pequeno coração!

Gostava de ir para o campo colher flores pequeninas na primavera. Era o miminho dos céus para as crianças  pobres que não tinham jardim nas suas casas, nem palácios, nem parques com baloiços e escorregas,  nem cidades luminosas. Eu só tinha uma aldeia cheia de crianças e de velhos, um pequeno quintal, muitos animais,  uma horta e muitos montes e vales carregados de giestas, urzes e alecrim. As flores que cresciam na minha aldeia eram livres, como eu, apareciam do nada, como por magia, eram oferecidas pela natureza, regadas pela chuva, eram amarelas e brancas e salpicavam os verdes lameiros, num mesclado encantador. Nunca falhavam! No tempo certo, lá estavam elas a aparecer e a fazer rir os meus olhos castanhos e a minha boca desenhada. Sempre gostei dessa lealdade. Nunca me trairam. Confesso que cheguei a duvidar delas! Atrasavam-se, em alguns anos, mas quando menos esperava, apareciam! O encanto da surpresa!   Às vezes vinham timidas, escondidas entre as pedras, talvez um parto negligente por falta de assistência,  outras vezes a cor vinha esbatida e as pétalas muito atrofiadas,   mas sempre me cumprimentavam e sorriam para mim. Pareciam sentir saudades minhas. Afinal, as estações contaram os dias.  Isso reconfortava-me. Gostava de enfeitar o cabelo com flores. Raras vezes as colhia. Achava um erro cortar flores. Ainda acho.  Um ato egoísta e cruel.  Não gosto de matar flores, nem bichos, nem pássaros, nem peixes, muito menos almas. Por vezes gostaria que as flores dos campos tivessem cores mais fortes e coloridas:  cor de rosa,  laranja, coral, vermelho...Mas logo me arrependia de pensar assim....A minha avó dizia que devemos ser gratos e eu já estava a receber uma dádiva tão bela e perfumada.  

Muitas vezes  acordo a pensar que o mundo é enorme e eu sou apenas um pequeno grão de areia neste infinito deserto. O meu oásis, por vezes tão longe, deve estar a ser cuidadosamente preparado. Imagino-o  repleto de palmeiras, altas e vigorosas, a crescer para mim. Não para me fazerem sombra, mas para me darem todo o esplendor da altivez e da maturidade, que procuro em mim e nos outros. Sempre me fascinou a força das coisas e das pessoas. Gosto de gente forte, peito largo para encostar a cabeça, pessoas carregadas de certezas e lucidez. Encanta-me a delicadeza e a subtileza, mas prefiro  a tenacidade e a coragem.A resiliência, essa, fascina-me. Gosto de força!!  Força nas palavras, nos gestos, nas atitudes.O meu oásis deverá ter lagos, cascatas e ribeiros, muita água fresca, movimento, luz e fruta colorida para me deliciar nas noites quentes. Deverá ter horta para semear as minhas alfaces e um banco de jardim para me sentar a vê-las crescer.

E assim será, porque mereço. 

E tu, aí, virás sentar-te ao meu lado. Fazer -me companhia e amar os nossos  dias. 

Vem colher alfaces! Comigo!

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17.05.22

Ocaso perfeito


Lia Ramos

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Estava distraída,

presa no inverno onde me sentaram.

Alma despovoada de sonhos,

muito fatigada...

Não te almejava tão perto.

Sabia-te... Mas longe...

Procurei-te em todos os jardins,

em todas as estações de mim.

 

E, após tantas espadas e margaridas,

chegaste na primavera,  tão simples assim...

O teu encanto e sorriso sem pranto,

um sol que brilhava na tarde plena.

Chegaste e fizeste em mim,

tua morada serena.

 

Parámos de súbito na estrada,

e num sopro, mil beijos demos.

 

O ocaso era perfeito,

um presente celeste 

vindo do céu...

 

 

 

 

 

 

16.05.22

Trevos


Lia Ramos

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Na rua treze,

na décima terceira porta,

vivem os nossos azares mais perfeitos.

Os girassóis gigantes,

enfeitam janelas e canteiros,

na casa dos afetos.

No pátio,

o passado e o futuro,

mordem os lábios de curiosidade.

E nós,  tão sossegados,

bebemos café...

Nos nossos jardins,

tão merecidos,

nascem, agora, trevos

 pequeninos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

16.05.22

Nas poesias que ( me) escrevo.


Lia Ramos

 

 
Procura-me, nesta ausência de mim,
perto dos sentidos e das palavras,
e do peso dos dias
que teimam em passar devagar.


Reconhece-me, nesta alma perdida,
atrás de um rosto alvo
e, sem vislumbrar meus cabelos,
agarra-me os dedos de luz. 

Inala o perfume das flores silvestres
que moram na minha pele.

Procura-me em ti.
E acolhe-me num dia 
de manhã clara
e leve.

Busca as palavras certas,
que fogem e vagueiam
entre vendavais e calmarias.

Espero que me encontres por aqui
entre vogais e consoantes,
nas poesias que (me) escrevo...
 

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16.05.22

Já chove na minha rua...


Lia Ramos

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Dancei na nossa rua,
em tapetes perfumados de alecrim.
As borboletas beijaram-me o cabelo, 
e a tua boca soube-me a cerejas doces.
Houve festa na praça,
e o sol fixou morada nos meus olhos.
A música infiltrou-se nos meus ouvidos.
As sinfonias leves, teimosas,
nasciam(só)na minha cabeça.
A esperança abraçou o futuro,
a noite e o dia fizeram um arco-íris,

tão colorido, tão perfeito, tão leve.

E depois,

Os dias ficaram mornos,

Os trovões rasgaram-me o céu da boca.

E eu fiquei sem voz.

E... quieta. E ... vazia. E...cheia...De nada.

Silêncio. Ponto.

 

Já chove na minha rua.

Eu vou dançar na chuva...

 

 

 

 

 

 

 


 
 
 
 
 
 
 
 

 

08.05.22

Aparentemente sozinho


Lia Ramos

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Ali vais tu seguindo pela estrada. Aparentemente sozinho. Um caminheiro solitário nesta vida. A estrada não tem só retas, a estrada não tem só curvas e tu não segues só. Deus e os teus pais, lá de cima, acompanham cada passo teu. Eu sei que não os podes ver, mas podes encontrá-los nos sonhos, nos pensamentos, nas orações e no amor que deste e recebeste.  Podes sentir a mãe na brisa suave da manhã e naquela coceguinha marota e insistente atrás da orelha  ou no ajeitar da gravata e no reparo no corte do fato quando te olhas ao espelho. Podes sentir o pai quando podes jurar que ouves chamar pelo teu nome e tu viras a cabeça mas não vês ninguém ou no ligeiro toque no teu ombro e naquela voz que ecoa na tua cabeça e te diz:  - Vai, rapaz! Os campeões nunca desistem! O papá está contigo!

Podes sentir a presença de Deus no silêncio, no céu estrelado e nas noites de lua cheia. Também O podes ver nos olhos dos teus filhos, no sorriso e olhar que sempre recebeste e nem sempre conseguiste devolver e reconhecer o puro amor. 

Sei que sentes dor, desânimo, cansaço, medo, insegurança, desespero e até vontade de desistir. Eu sei... Acordas tantas vezes a meio da noite e apetecia-te um peito quente com um coração a bater compassadamente para nessa melodia serena adormecer.  Seria bom que o céu te enviasse um cabide  especial para pendurar os pesadelos e os anseios durante a noite. Tens muitos pássaros presos a mistigar -te os pensamentos sombrios e a querer fazer ninho. De noite ficam mais inquietos por isso solta-os. Precisam voar! Não os aprisiones. 

Olha para a luz que vem do fundo do caminho. Foca o teu olhar nesse ponto e nutre-te. Tens tanto para te dar. Tens tanto para me dar.  Continua sempre a andar e não olhes para trás. Não ensines o caminho ao Diabo. Segue os desígnios de Deus e as suas pegadas. Se o passado fosse bom era presente.  Enfeita este presente da vida chamado HOJE com fitas e laços verdes. A cor da esperança e festeja a vida.

Eu estou escondida nos arbustos. Consegues ver as pontas dos meus dedos?  Se caires, ajudar-te-ei a levantar. Consegues ver as pontas dos meus pés? Se caires irei amparar-te no caminho e seguir contigo.  Olha para dentro de ti e transforma-te. Ainda vais a tempo de renascer, de melhorar e de te perdoar porque és pecador e já magoaste muito, mas também já foste magoado.  A caminhada da tua vida será bem sucedida e chegarás , como caminheiro resiliente e forte finalmente ao teu destino.  Uma prova de superação, um desafio, um encontro contigo mesmo e com a tua fé, pois só ela te pode salvar. Vai, anda sempre e se precisares descansar, descansa.

Para no albergue, limpa as feriadas e depois  segue. 

Eu estou escondida nos arbustos.