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Colo em flor.

Depois de largos anos de adormecimento em relação às palavras, eis o regresso, o recomeço, às tentações da escrita e da criatividade. Enfim, um "parto" de ideias.

Colo em flor.

Depois de largos anos de adormecimento em relação às palavras, eis o regresso, o recomeço, às tentações da escrita e da criatividade. Enfim, um "parto" de ideias.

21.04.22

Intensidades


Lia Ramos

 

 

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Ser intenso é defeito? Penso que não! Bem pelo contrário!

É jeito de quem nasce assim. É essência. É coragem. É verdade. É amor. É ter a liberdade de sentir, de dizer, de fazer, de viver bem e em paz connosco e de consciência tranquila,  com sorrisos fáceis, lágrimas felizes, coração cheio,com aquela sensação de que vai explodir de felicidade, a qualquer momento. Os olhares serenos são tesouros sem preço para os apreciadores de almas. Assim vive quem intensamente ama a nossa vida e a dos outros, como se a vida deles fosse também nossa.

Tantos erros comete uma pessoa intensa na sofreguidão da entrega!! Sofre por não conseguir ser de um jeito diferente! Todos dizem que deveriamos ser mais comedidos.  Peço compreensão aos não intensos, aos equilibrados, aos "certinhos" eaos aos controlados pelo amor infinito e entrega absoluta. Quase ninguém gosta dos que intensamente amam porque parece terem um distúrbio de personalidade, uma bipolaridade quaquer. São os exagerados, os oito ou oitenta, os descontrolados. Porém, Fernando Pessoa era intenso no amor, Florbela Espanca na entrega, Sophia Andresen no pormenor, Saramago nas ideias, Camões na descoberta  e no legado, Mia a apreciar gente, Eunice na força das palavras , Ronaldo no remate certeiro, Amália na voz...E tantos outros por aí...Todos artistas, muitos génios, os "diferentes". Os intensos costumam ser  sensíveis, sensitivos, chorões, emotivos, sonhadores e românticos. E pressentem, pressentem muito numa perturbante vidência que nos faz pensar que algo divino nos distinguiu à nascença.  A intensidade do pensamento antecipa- os a sonhar, a acreditar e a rezar no silêncio da noite.

Há muitas pessoas intensas e muitos animais também! As crianças são intensas no riso, nas brincadeiras, no grito e no choro, os cães no abanar da cauda, os gatos no afago, os peixes no silêncio, os pássaros no bater das asas. 

Tantos somos a embelezar o mundo!!

Os não intensos e os pouco intensos leem poesia, ouvem música e batem palmas mas riem e amam controladamente. Sem exageros. Como os admiro!  Não é oportuno, não é correto ser demais, ser XXL nas emoções, ser muito, ser descontrolado nas palavras,  na gargalhada,  no tom de voz. Os abraços de um não intenso nunca são demasiado apertados, na folga dos braços há sempre margem para o erro. O número de beijos e sorrisos são contabilizados ao dia, à semana, ao mês, ao ano, à vida que se esvai e depois é tudo anotado na tabela de Excel da alma. Nada se desperdiça. Tudo é  apropriado, justificado, útil,  na medida certa,  merecido, calculado e previsível.Razão e emoção em equilíbrio não é para todos! Privilégio de alguns. Equilíbrio é para quem aprendeu a arte de dominar o trapézio, no circo da vida. E isso requer treino e coragem. Implica quedas, tentativas, deceções e suor mas, para não haver queda,  é preciso continuar a abrir os braços!

Embora nem sempre se reconheça, o abraço de um intenso é especial, os dedos carregadinhos de sensores sentem mais, apertam mais, agarram mais e beijam e tornam a beijar vezes sem conta até se cansar. Nada se compara ao querer e à sensualidade de um intenso. Insinuam-se naturalmente porque a pele é macia, a alma puxa, o corpo inclina-se naturalmente disponível ao aconchego. Por vezes, mal interpretados, julgados de insaciáveis,  mas o colo dos intensos e o seu peito enorme são os melhores lugares do mundo para descansar a cabeça.

Desconfio que Jesus, ao dar a vida por nós, foi o maior intenso da história da Humanidade arrecadando o maior Prémio da Intensidade alguma vez ganho. Título muito merecido, pois quem ama os outros como a si mesmo, merece a salvação e um reino nos céus!

Em segundo lugar, as Mães. Mãe a sério é intensa, é forte e meiga. É tudo ou nada.  Ela ri na  tristeza e chora na alegria. Vive pelo filho e para o filho e morre pelo filho se preciso for.  E quer enterrar -se junto do filho se o filho descer à terra primeiro.

Em terceiro lugar, o escultor. É incrível como o escultor acredita na potencialidade de uma simples pedra e depois a transforma em beleza eternizando memórias pelos tempos. Combinação perfeita de entrega, resiliência, presente, passado e futuro numa única e sublime criação. 

Os intensos gostam de carregar a cruz dos que amam. A deles e a nossa. Garanto que mesmo assim conseguem  apreciar a primavera e colher flores pelo caminho.

Os intensos querem abraçar o mundo para não perder pitada, não perder tempo. Absorver tudo porque já se percebeu que só temos esta breve vida. Os intensos amam a  natureza.  As paisagens  envaidecem-se,  ficam mais imponentes perante os nossos olhos. O pôr do sol é o miminho, um desfecho de dia  merecido, a chave de ouro da porta da emoção. O mar parece mais calmo e acolhedor quando as lágimas de sal de um intenso escorrem pelo rosto. As montanhas, os lagos e os rios apaziguam a nostalgia ao serem apreciados por um intenso observador. A lua e o sol brilham mais quando um intenso está apaixonado, por isso os olhos dos namorados são feitos de luz  para  iluminar os dias e as noites  e servirem de inspiração aos intensíssimos poetas. 

O mundo precisa de intensos para lhe dar cor e significado e fazer poesia, escultura, pintura, teatro, música e ensinar a arte de ser e existir.

Continuo a acreditar que a vida deve ser vivida com intensidade e entrega, apesar de tudo!

Ser intenso é ser suave como brisa e forte como o vento. É transbordar por dentro e por fora e marcar vidas com o que damos e  o que sentimos.

Como é  maravilhoso sentir o coração a querer saltar do peito. Um estado quase permanente de extâse e ansiedade que simultaneamente acalma e agita.

O traço leve não define o desenho e depois da borracha o acariciar  nada resta, nem a essência do desenho, nem a alma do artista. Nada. Porém, se  o traço for vincado e firme, deixará marcas no papel e na memória de quem o fez e a borracha terá que beijar o traço, "esborrachar-se" completamente para o conseguir apagar.

Garanto que a borracha nunca mais se esquecerá do beijo. E o traço também não!